Kelly Slater

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segunda-feira, 11 de março de 2013

O Destino e Adeus do Sr. Abrasha

Sr.Abrasha junto com sua amada esposa,Srª Asna, e que Deus os ilumine.


É com pesar que mais uma pessoa de luz e amor se vai desta vida, de sofrimentos e dor.
Sr, Abrahan Jaspan,  carinhosamente apelidado de Sr. Abrasha, eu o conheci por quinze minutos, ele era sogro do meu pai e tive uma lição de vida. Principalmente no que se refere ao destino. 
Um homem que aos 17 anos lutou na Segunda-Guerra Mundial, era Lituano,sua família foi dizimada pelo holocausto. perseguido pela SS(por ser judeu),  posteriormente pela NKVB, conseguiu enganá-los pela inteligência e cultura(poliglota sem ter sotaque),que lhe foram peculiares.  
No fim da guerra, junto com a Srª Asna, conseguiram ir à Itália para embarque do continente europeu, preterindo Israel e escolhendo o Brasil, onde casaram-se. Geraram dois Filhos: Salomão e Atalia(companheira de meu pai , que tem enteados maravilhosos).
A mensagem que sempre deixei para a Atalia,agora, transmito a todos, informo o que ouvi no dia que conheci sr. Abrasha: "Deus estabelece o nosso destino e jamais poderemos ir contra a vontade dele."
Depoimento:


Abraham Jaspan


Pai: Shlomo Jaspan

Mãe: Raquel Jaspan (solteira: Cernes)



"   Eu nasci em Kovno (Kaunas), na Lituânia. 
A família de minha mãe era relativamente rica. Meus tios, irmãos de minha mãe tinham uma indústria de meias (Fábrica Cotton). Minha mãe tinha participação na empresa como sócia minoritária e dirigia o setor de distribuição da empresa. Meu pai estudou engenharia, mas, trabalhava na contabilidade da empresa. Meus pais falavam Russo.  Eles não eram religiosos. Por parte da minha mãe, havia um tio religioso. Eu aprendi Idish com os amigos.
         Na Lituânia, os judeus tinham autonomia cultural. O próprio governo não queria gastar com a comunidade judaica, a maior comunidade não-católica do país (15 a 20% da população). Assim, a comunidade judaica era independente: tinha escolas, hospital, asilo de órfãos, asilo de idosos, Chevra Kadisha. Deste modo, apesar do pagamento de impostos, os judeus arcavam com tudo sozinhos.
         Na minha época de garoto, os judeus lituanos viviam numa coletividade fechada. De um modo geral, não se davam muito com goim (não-judeus); socialmente, era raro; o relacionamento era comercial.
         Eu vivi na Cidade Velha, onde, praticamente, 90% da população eram judeus. Os goim, eram operários, porteiros, etc. De modo geral, não tínhamos contato com goim. Havia anti-semitismo na imprensa ou quando estudantes judeus se encontravam com estudantes goim (às vezes havia até brigas). Judeus não freqüentavam escolas não-judaicas. Nas universidades, os judeus não eram admitidos: achavam sempre que a prova do judeu (vestibular) era abaixo da crítica. Por isso, os filhos de famílias mais ricas, eram mandados para universidades na França, Inglaterra, Alemanha.
         Aos cinco anos, fui estudar no Ginásio Schwabe, não-religioso, onde o Idish era proibido para não atrapalhar o aprendizado do Hebraico. A escola mantinha intercâmbio com escolas na Palestina: professores da Palestina vinham ensinar na Lituânia e professores da Lituânia iam para a Palestina aprender. Neste Ginásio, todas as matérias eram ensinadas em Hebraico: Matemática, Geografia, Latim, História Geral, conhecimento do Sionismo com Geografia e História da Palestina, Literatura Hebraica. Literatura Idish eu só estudei na época do domínio russo, quando nossa escola foi fundida com a Kommerzschule, depois denominada Scholem Aleichem. A nova direção da escola indicou uma aluna  da Juventude Comunista para estudar comigo para ver se eu e os outros alunos não continuávamos com o Sionismo.
         O Ginásio Schwabe era sionista. Meus pais não eram sionistas. Entrei nesta escola porque meus tios recomendaram. O meu sionismo é da escola. Os alunos eram de diferentes movimentos: Betar – Dror – Hashomer – Gordonia – a juventude do Mizrahi. Freqüentei o Betar porque gostava de esportes. Havia colônias de férias (três , quatro dias), com vários tipos de exercícios.
         O nosso Ginásio era do tipo do clássico que existiu no Brasil. O curso durava 11 anos. Quem terminava podia dar aulas em escolas primárias da periferia, porque aí é que faltavam professores.
         Não cheguei a lecionar porque recebemos o certificado de conclusão dois dias antes da 2ª Guerra Mundial nos atingir (1941). Provavelmente, se não fosse a guerra, eu teria seguido alguma carreira diferente por causa dos negócios da família.
         Durante a guerra, atuei como combatente soviético. Em 1945, com o fim da guerra, fui para a Itália ajudar no transporte de sobreviventes do Holocausto para a Palestina. Foi aí que conheci Asna (da Ucrânia), que era guerrilheira (Partisan) por quem me apaixonei e casamos.
         Tomei então conhecimento que minha mãe e minha irmã Judith  estavam vivas em Lodz (Polônia). Fui procurá-las e as trouxe comigo para a Itália. Meu pai não havia sobrevivido.
         Pretendíamos ir para a Palestina. Mas, para a Aliá B (ilegal), meu sogro era considerado velho (nascido em 1895). A idade máxima, para aqueles primeiros navios, era 35 anos porque precisava-se de gente com menos idade que ajudaria a construir o futuro Israel. Era preciso esperar. Minha mãe queria ir para os Estados Unidos, mas, havia quotas (para nascidos na Lituânia, três ou cinco mil) e na Embaixada Americana, em Roma, disseram que a lista estava esgotada: era preciso esperar dois ou três anos. Meu sogro, pai de Asna, queria vir para o Brasil onde tinha parentes de sobrenome Arkader. Assim foi decidido que viríamos para o Brasil.
         De Roma partimos para Florença onde conseguimos vistos. Havia uma determinação de Getúlio Vargas que limitava a entrada de judeus no Brasil, sendo que muitos se converteram para conseguir o visto. Só conseguimos vistos em Florença por intermédio de uma consulesa brasileira que desobedeceu as ordens de Getúlio Vargas e, por isso, foi demitida.
         Viajamos no navio italiano “San Giorgio”, pequeno, com um único andar para as camas: era um antigo navio hospital. As passagens foram pagas pela Cruz Vermelha.
A viagem durou cerca de dois meses por causa de um vazamento e, assim, ficamos um tempo em Las Palmas. Chegando ao Brasil, os passageiros tiveram que optar por São Paulo ou Rio de Janeiro. A maioria preferiu São Paulo, onde as condições de vida eram melhores.
Ficamos no Rio de Janeiro, onde o pai de Asna tinha parentes.  O Sr. Abel Arkader nos recebeu e ficamos hospedados por dois dias na Praça Tiradentes. Fomos então direto para a Abolição onde ficamos todos juntos num apartamento: eu, minha esposa, meu sogro, minha mãe, minha irmã Judith e mais três irmãos de Asna, na Travessa Santa Martinha. O apartamento ficava numa casa de dois andares: em cima morava o Leib (Leon) Arkader com a família (fizeram aliá); embaixo, nós moramos. Mas, o tio David Arkader disse que não ficava bem um homem (meu sogro) e uma mulher (minha mãe) viverem debaixo do mesmo teto sem serem casados. Aí, meu sogro e minha mãe casaram.
         Meu sogro e meus cunhados foram trabalhar klintele (como prestamistas). E eu cheguei ao magistério por acaso. O Srul Arkader tinha uma loja de roupas no Méier e vendia a mercadoria para klinteltshikes em consignação. Muitos deles apareciam na loja para negociar e conversar. Um dia, meu sogro estava lá quando apareceu o Simcha Arkader. Conversa vai, conversa vem, acabaram falando da Escola Bialik e comentaram que a Profa. Berta Kuznietz (de Hebraico) casou-se com um outro professor da escola (também de Hebraico) e que o casal faria aliá, ficando por isto a escola sem professor de Hebraico. Aí, meu sogro disse que o genro (eu) falava um perfeito Hebraico, além do Idish. Como não havia outro candidato, o Srul Arkader (que era o Presidente da Diretoria de Pais do Bialik) achou que talvez eu pudesse dar conta do trabalho. Fui até a escola e no dia 01/03/1947 eu já estava trabalhando de carteira assinada.
         Na Itália, depois da guerra, eu tinha ficado mais ou menos um ano e meio e aprendi um pouco de italiano (cheguei na Itália em junho de 1945 e saí em janeiro de 1947). No meu colégio eu tinha estudado latim. Então, dava para entender um pouco de português. Falar era difícil. Ensinei Hebraico por mímica. Assim, entrei para substituir uma professora e fiquei no Bialik até 1951. O diretor era o Dr. Moysés Fridman. Dei aulas para todas as séries do primário. Além de Hebraico, dei aulas de Tanach (“Histórias da Tora”). Também dei aulas particulares de Hebraico. No Bialik trabalhava a Profa. Golda Rubinstein dando aulas de Idish.
         Fui trabalhar também no Colégio Hebreu Brasileiro ensinando Hebraico. Aí, as aulas começavam às 7 horas da manhã. Eu saía de casa às 6 horas e pegava o bonde para a Tijuca, onde ficava o Hebreu Brasileiro. Trabalhava até mais ou menos às 10 horas. Aí, pegava o bonde e ia para o Bialik, no Méier, e trabalhava até as 17 horas. Depois eu ainda dava aulas particulares.
         No Hebreu, conheci o Prof. Berzon (que dava aulas de Idish), o Prof. Moysés Burlá (aulas de Tanach) e o Dr. Isaac Izecksohn (que era o Diretor). Neste colégio trabalhei mais ou menos dois, três anos.
         Como cheguei a Madureira? O ishuv (comunidade) de Madureira era muito ativo na vida comunitária. Se o Méier parecia um shtetl (cidade pequena), Madureira era a shtot (cidade). A comunidade fundou uma escola, mas estava dividida em dois grupos: o IKUF (progressistas) e os sionistas. Esses grupos brigavam muito entre si e houve uma ocasião em que acabaram na delegacia. Nenhum dos dois grupos tinha condições de fundar e manter uma escola sozinho: juntaram-se para fundar a escola. Mas, continuavam a brigar por causa da diferença de idéias, apesar de terem interesse comum na escola (I. L. Peretz): brigavam pela política. O Diretor da escola era o Prof. Iucht, um idishista que era tolerante. Na época, existia a Machlaká Lechinuch Uletarbut (Divisão Judaica de Educação e Cultura) aqui no Rio. A Machlaká recebia de Israel material didático para as escolas judaicas com o objetivo de ajudar os professores do ensino judaico.
         O grupo sionista procurou a Machlaká pedindo um diretor para a escola de Madureira. A Machlaká me procurou na escola do Méier para que eu assumisse a direção da escola de Madureira (que só tinha o primário). O Dr. Moysés Fridman me passou o pedido e sugeriu que eu aceitasse. Fui até lá para uma reunião e fui bem recebido pelos dois grupos. Eu já sabia da situação política dos dois grupos. A minha primeira pergunta ao Iucht foi por que me chamaram se ele ainda trabalhava lá – era dezembro. Ele me disse que não estaria lá no ano seguinte. Da Diretoria da escola eu quis saber se era para dirigir só a escola ou todo o centro cultural: era só a escola. Aí apresentei minhas condições. Falei sobre o programa que eu já seguia no Méier e que era o programa da Machlaká. Falei sobre o salário. Aí, apresentei a condição mais importante: as divergências políticas (sionistas x progressistas) ficariam totalmente fora da escola. Todos aceitaram e eu aceitei. Os dois lados cumpriram o trato.
         Dirigi o I. L. Peretz durante mais ou menos 5 anos. A escola se desenvolvia bem. Então, a Diretoria resolveu abrir o ginásio. Perguntaram a minha opinião. Eu disse que para fundar um ginásio era preciso passar por trâmites legais e eu achava que era difícil arriscar. Mas, foi decidido criar o ginásio e já havia um professor para assinar como diretor do futuro ginásio (José Orind).
         Quem me ajudou a passar por todos os trâmites foi o Prof. Moisés Genes, que me dizia onde ir e com quem falar. Havia, por exemplo, a obrigatoriedade do ginásio ter uma sala de ciências. O Prof. Genes pegou emprestado no Colégio Scholem Aleichem (onde era o diretor) o laboratório todo e mandou para Madureira. Quando veio a inspeção verificar as condições do futuro ginásio, já encontrou um laboratório. Depois da inauguração, ainda trabalhei em Madureira nos dois primeiros anos do ginásio.
         O primário e o ginásio do I. L. Peretz eram muito elogiados. Os vizinhos não-judeus queriam mandar os filhos para a escola e eu aceitei. Os alunos não-judeus acabavam assistindo as aulas de Ensino Judaico por escolha própria.
         Saí de Madureira porque a Escola Max Nordau precisava de um diretor de Ensino Judaico. A escola funcionava na Rua Francisco Otaviano (primário). A medida que o íshuv (comunidade) da Zona Sul crescia, a diretoria comprou um terreno na Rua Prudente de Morais para fazer o ginásio. A Machlaká pediu que eu aceitasse o cargo e eu assumi o Max Nordau, na época da fundação do Ginásio.  Nessa época, morávamos no Méier. Fiquei no Max Nordau. Depois, dei aulas no Liessin.
         A turma (os alunos) de Madureira era excepcional. Os que saíram do I. L. Peretz eram bem preparados. O ishuv de Madureira tinha uma vida familiar judaica como na Europa (muito família). Na hora do lanche, as mães traziam a merenda para os filhos e viam se eles comiam; queriam saber como os filhos estavam no estudo. Era gente simples que falava Idish. Resolvi, também, unir os garotos para fazer esportes e jogava-se contra outras escolas.
         As crianças do Méier e de Madureira eram mais educadas, não tinham problemas disciplinares e respeitavam a escola. No Max Nordau e no Liessin, elas eram mais soltas. Vários alunos das escolas foram meus alunos de Bar-Mitsvá.
         De modo geral, os pais não tinham pelas matérias judaicas o mesmo interesse que por outras matérias. O melhor resultado no ensino foi no Bialik do Méier. A melhor convivência com o ishuv (comunidade), a Diretoria de Pais e os alunos foi em Madureira. De Madureira sinto mais saudade do que de todo e qualquer lugar.
         A formação dos professores de Hebraico, no início, era um problema. Na Escola Hertzlia foi fundado um curso. Mais tarde, vieram professores de Israel e o curso acabou.
         Trabalhei, também, como voluntário para o Karen Kaiemet, organizando as festividades judaicas para a comunidade.
         Na Abolição, a coletividade era pequena e, sendo o Méier próximo, era lá o centro de tudo, tanto do comércio como das festividades religiosas e encontros sociais.
         Havia boas relações entre as coletividades do Méier e Madureira. As disputas entre sionistas e progressistas em Madureira eram bem mais fortes porque a comunidade era mais ativa. Os grêmios do Méier e de Madureira reuniam muitos jovens com noites dançantes e conferências.
         A maior parte dos judeus do Méier, Madureira e adjacências trabalhava klintele (como prestamista). No Engenho de Dentro havia as oficinas de fabricação de vagões do governo e os funcionários recebiam o vencimento em dia certo e os que trabalhavam klintele faziam a cobrança neste dia. Muitos judeus se deram bem e conseguiram abrir lojas. Na Rua Adolfo Bergamini, no Engenho de Dentro, por exemplo, o comércio era muito ativo e freqüentado.
         Acho que este trabalho pela memória da coletividade da zona suburbana da Central do Brasil ficará registrado no Museu Judaico como lembrança de uma vida feliz e ativa de imigrantes e merece elogios.


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